Ética: uma obrigação de toda empresa

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Pode parecer absurdo — e é —, mas não são raras as vezes em que um trabalhador destaca o pagamento em dia como uma das virtudes de sua empregadora. Nos últimos anos, a frase tem sido amparada por um argumento, no mínimo, curioso: em um país afundado em tanta corrupção, trabalhar em uma empresa honesta é um benefício.

É curioso porque o depósito do salário no dia estabelecido no contrato e o cumprimento de outras obrigações previstas na legislação trabalhista parecem ter sido elevados ao status de “qualidade nobre”, o que nos faz pensar que, em um cenário em que o erro tornou-se padrão, fazer o certo salta aos olhos — quando deveria ser, simplesmente, o esperado. A empresa que não rouba é uma organização exemplar ou, bem, não está fazendo mais do que a sua obrigação?

Em um artigo, Danilo Marcondes de Souza Filho, doutor em Filosofia pela Universidade de St Andrews, na Escócia, e coordenador do núcleo ERA – Ética e Realidade Atual, um projeto institucional da PUC-Rio, comenta sobre a “naturalização” da corrupção, criticando a falsa ideia de que é “normal” cometer uma infração ética em um contexto em que todo mundo o faz. Uma distorção de valores que leva à posturas absurdas como a de que, se toda licitação de obra pública envolve propina, esse é o modus operandi; ou, se todos sonegam imposto, isso não é nada de mais. Tal “naturalização” pode gerar ideias ainda mais estranhas, como a de que um indivíduo ou uma instituição merece algum tipo de recompensa por não cometer infrações. Como o professor afirmou em uma entrevista exclusiva a Appus, “a tolerância à corrupção é um sintoma de que não estamos seguindo o caminho do amadurecimento e que não reconhecemos o papel da ética, causando danos a outras pessoas — e um dos critérios fundamentais da falta de ética é causar dano”.

Para Aristóteles, ética é basicamente uma questão de prática. Ela está em nós em potencial, mas se desenvolve pelo hábito. Mais do que isso, o filósofo grego defende em Ética a Nicômaco, uma das principais obras do pensador, que “é das mesmas causas e pelos mesmos meios que se gera e se destrói toda virtude, assim como toda arte: de tocar a lira, surgem os bons e os maus músicos”. Isso significa que é no dia a dia que construímos a ética e que “as diferenças de caráter nascem de atividades semelhantes”.

Claro que nenhuma empresa ou indivíduo será “virtuoso” o tempo inteiro. Acreditar no conceito aristotélico de que a ética se dá pelo hábito pressupõe a ideia de desenvolvimento constante e, consequentemente, da existência de erros a serem corrigidos. Fato é que sempre existirá um potencial de melhoria. No caso das organizações, por exemplo, uma pesquisa da consultoria ICTS publicada em agosto de 2016 revelou que apenas 61% das 642 empresas avaliadas aplicam um código de ética e procedimentos de integridade para todos os colaboradores. Já no caso dos brasileiros, um levantamento do Instituto Data Popular, também do ano passado, mostrou que 70% dos 3.500 entrevistados admitem já ter cometido ao menos um tipo de infração. Todos nós temos potencial de desenvolvimento e, quem sabe, o primeiro passo da caminhada rumo a virtude moral não seja elevar o padrão? Então, na próxima vez em que o seu pagamento cair no dia certo, ache normal — porque, na verdade, é.

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